Palavreando: conto Irmandade

18:53:00

Foto: reprodução

Irmandade

Maldito relógio biológico! Grunhi baixo no travesseiro. Uma olhada rápida no relógio sobre o criado no travesseiro me mostravam que ainda não eram nem sete horas da manhã. O clima amanheceu bem friozinho e eu não tive forças para levantar. Puxei as cobertas mais sobre o rosto e me encolhi. Tinha tempo...

Ou achei que tivesse. Ouvi a voz de Rebecca um pouco ao longe, me chamando. 

- Oi... - sussurrei.
- Levanta, Bru! - ela puxou as cobertas - Hoje é o dia D! 

Quando ela falou isso eu sentei muito bruscamente na cama. Caramba! Como pude esquecer? Passamos um mês planejando como seria nosso último dia juntas. Rebeca embarcaria amanhã para um intercambio em Portugal. Não consigo me lembrar de um dia em que não tenha compartilhado com ela de alguma maneira. 

Sentiria falta das brincadeiras no jantar, das mensagens bobas trocando durante o dia a dia, do ombro amigo, das aulas de violão (que eu nunca aprendia direito), de cantarolarmos juntas no Karaokê. Como viveria um ano assim? 

- Já estou de pé! - levantei sorridente, abraçando-a. 

Ela estava com seu pijama rosa de unicórnio. No frio ela adorava usar esses pijamas de flanela estampados. Houve uma época em que usávamos os mesmos pijamas, em uma brincadeira de sermos gêmeas por uma noite. 

Alguns minutos depois estávamos prontas, comenda na cozinha silenciosa de casa. Mamãe havia preparado um bolo de chocolate na noite anterior e foi isso que devoramos, aos risos. Fomos até o quarto de nossos pais e depusemos um beijo em cada um. Colocamos o bilhete sobre a mesa da cozinha relembrando para onde íamos. E saímos. 

O prédio ainda estava bem silencioso, despertando gradativamente. Passamos na garagem para pegarmos nossas bicicletas. Morávamos em um bairro tranquilo e próximo dali havia um bosque. Ah, como brincamos ali durante a infância. 

Foi ali que decidimos começar. Pedalamos, em uma silenciosa corrida, contando bobagens. Rir era tão fácil! Os conhecidos sempre admiraram a cumplicidade que tínhamos. Mas não é para isso que servem as irmãs? Serem aquelas amigas que estão sempre perto? Ora, foi o que sempre ousei pensar. 

E talvez por isso tivesse me doendo a partida. Se afastar nunca é fácil. 

- Um pedaço de paraíso perto de casa - ela disse, se aproximando mais de mim - Não acha? 

- Sem dúvidas - sorri. Amávamos a natureza! Herança de nossos pais biólogos. E que tentávamos espalhar sempre - Olha só - apontei para alguns passarinhos sobre a árvore. 

Paramos para olhar. Eles pipilavam sem parar. Sorrimos, bobas, em cumplicidade. Ela me abraçou e continuamos o caminho de pé. 

- Acho que é melhor para não perdemos nada - ela cochichou, para não assustar os animais. Nunca tinhamos vindo tão cedo. 

O despertar da natureza é mágico. Sentamos em uma pequena clareira mais à frente e deitamos em uma toalha que levamos. Ficamos ali por um tempo, sentindo cada efeito daquela magia em nós. 

Tudo ia dar certo, no fim. Um ano passaria rápido e além disso, irmandade não depende de distância. 


* Esse é mais um texto feito para o desafio Imagem & Palavra. Dessa vez a inspiração foi a imagem acima. Espero que tenham gostado!

Beijos!




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